ÁFRICA: SILÊNCIOS CÚMPLICES Por: Anadria Caballero* Havana– A História de África está a ser escrita agora, não como contavam alguns académicos, pela falta de documentos sobre os acontecimentos do passado, mas porque a hora actual nos tem permitido descobrir, comprovar e reunir um grande número de evidências que demonstram que foi África o “Berço da Humanidade”. As evidências fornecidas pelos restos fósseis encontrados durante as escavações feitas em Marieta, no Egipto, tem permitido descobrir neste continente as diferentes etapas que conduziram ao hominídeo. Neste sentido vai-se ainda andar muito mais longe, pois se tem conseguido estabelecer também a existência de uma fêmea humana primigénia que viveu em África há duzentos mil anos, desmentindo a teoria do desenvolvimento humano paralelo em diferentes lugares do mundo. As últimas comprovações das pesquisas realizadas manifestam e coincidem na existência de só uma fonte. De um lado as evidências genéticas oferecidas pelo estudo do ADN herdado da Mãe levou à conclusão de que a humanidade provém de uma Eva africana. Anne Bowocock, da Universidade de Texas, liderou uma equipa de investigação que centrou os seus estudos em pequenos segmentos altamente repetidos e variáveis do ADN (chamados microsatélites) nos fõsseis humanos africanos, comprovando que estas foram as populações mais antigas, pois os conglomerados humanos que se afastam das suas origens desenrolam menor diversidade genética. A antropologista norte-americana Diane Waddle, da Universidade de Nova Iorque, recorreu a um método estatístico conhecido como “correlação de matriz” para comparar as diferenças existentes entre os diferentes crânios humanos. As conclusões foram: “ ... as análises quantitativas apresentadas aqui apoiam a crença de uma só origem dos seres humanos modernos, em contraste à de longos processos evolutivos dentro de diferentes regiões”. Pesquisas de paleontologia de finais do século XX reafirmam a origem africana do humano, comprovando-se que os novos hominídeos encontrados na Europa provinham desse continente. Assim o demonstram os cientistas que escavaram no jazigo de Grande Dolina, em Atapuerca, Burgos, na Espanha, galardoados com o Prémio “Principe de Asturias” no ano 1997. Esta equipa confirmou que : saiu pela primeira vez à Europa para se converter no “Homo Heidelbergensis”, quem deu lugar ao Neandertal. Os antecessores que permaneceram em África evolucionaram e deram origem ao Homo Sapiens, que viveu na Europa e sucederam os Neandertais”. Durante muitos anos, por não dizer séculos, foi criada a lenda da África Negra e da África Branca, segundo ela só se tinha produzido uma alta civilização ao norte do continente, ignorando culturas que se desenvolveram noutras regiões tão importantes como a egipcia, tais como Axum, no Zimbabwe, São Nok, Ifé, Kush, por só falar dalgumas. Contudo, o mais importante não está em que a egipcia tenha sido reconhecida como a primeira grande civilização humana que tenha deixado profundas pegadas no desenvolvimento da cultura universal, como se infere do facto da sua contribuição para a Arquitectura, como tornam patente ainda as suas Pirâmides ou outros conhecimentos como o embalsamamento ou a mumificação, onde demonstraram o conhecimento de técnicas desconhecidas até hoje, mas tão efectivas que permitiram a conservação dos corpos humanos por milhares de anos, mas que este povo, o qual penetrou todas as culturas da antiguidade era não só africano, mas também negro. Cheikh Anta Diop, antropólogo e físico do Senegal, fez uma das pequisas mais importantes da história africana ao comprovar a origem negra da civilização egipcia. O destacado cientista, que também foi professor de Egiptologia da Universidade de Dakar, fundador e director do Laboratório de Radiocarbono e de Medição das Radioactividades Débeis do Instituto Fundamental de África, num trabalho minucioso realizado no laboratório de Antropologia Física do Museu do Homem em Paris, com mais de 100 múmias provenientes das escavações de Marieta, no Egipto, comprovou que “a evaluação da percentagem da melanina pela observação através do microscópio é um método de laboratório que permite classificar os antigos egipcios entre os negros”. Segundo o especialista Cheikh Anta Diop, se pode conhecer a cor da pele e a raça dos antigos egipcios através de uma análise realizada em laboratório... “A melanina ( ...) é insolúvel em geral e conserva-se durante milhões de anos na pele dos animais fósseis, com facilidade encontra-se na pele das múmias egipcias”. O antropólogo e físico do Senegal recorre a diferentes disciplinas científicas para testemunhar sobre a raça dos egipcios, para isto utiliza as medições osteológicas que no campo da antropologia física são as menos enganosas para classificar as raças, como também recorre à classificação dos grupos sanguíneos e assinala : “ é notavel que até aos actuais egipcios, sobretudo os do Alto Egipto, perteçam ao mesmo grupo B, que as populações da África Ocidental no océano Atlántico, e não ao grupo A”, característico da raça branca antes dalguma mestiçagem”. Cheikh Anta Diop consulta as diferentes fontes científicas para testemunhar a origem negra deste povo. Recorre às linguísticas em que se evidência que na escritura hieroglíficas os egipcios se reconheciam como negros. Os qualificativos divinos mais admitidos foram “moreno ou negro”, utilizados para dirigir-se aos principais deuses do país. Também reune todos os dados oferecidos pelos autores clássicos da antiguidade enquanto à raça egipcia. Menciona opiniões de Herodoto, Ariostóteles, Anaxágoras, Luciano, Apolodoro, Esquilo e outros pensadores que num momentos dado deixaram testemunhos neste sentido. Mas, qual tem sido a razão pela qual foram silenciados ou escamoteados estes resultados ? A primeira delas foi o resultado de conceitos de falsos cientistas que se desenvolveram a partir do inicio do tráfico de escravos iniciado no século XV, visando combater todo tipo de sentimento humanista para essas pessoas, as quais eram tratadas pior que os animais. Em 1781 publica-se pela primeira vez um livro escrito por um médico e naturalista holandês, P. Camper, que expressa uma ideia racista, segundo a qual o negro estava mais perto do macaco do que o homem branco. A teoria expressava que o ângulo frontal do crânio dos primates vai mudando em determinada sequência dos macacos antropóides aos africanos, e destes últimos aos brancos. Este livro, muito divulgado, foi utilizado por outro especialista, J. Hunter, escocês, que em 1791 afirmou que o europeu era de um nivel muito mais alto do que o africano pelo seu desenvolvimento físico e intelectual. Estas teorias, que tentavam justificar o tráfico de escravos, mantiveram-se durante séculos e lógicamente combatiam tudo aquilo que dizera o contrário, sobretudo aquilo que deixara conhecer o desenvolvimento dessas culturas e que puderam mostrar a existência de uma igualdade, não só física, mas também intelectual. É lógico que com o desenvolvimento da Revolução Científica Técnica, a qual deu respostas a muitas coisas deconhecidas, se deram a conhecer verdades que desmentiram todas essas teorias racistas, mas ainda revelavam a existência de conhecimentos ignorados durantes gerações pelo mundo ocidental. Desde Aristarco de Samos até aos astrónomos do 1900, a Humanidade empregou mais de 22 séculos para poder calcular a distância entre a terra e o sol.. Só com ter multiplicado por um bilião a altura da Pirâmide de Keops, construida hã dois mil e 600 anos antes da nossa era, se teria conhecido que a distãncia é de 149 milhões e 400 mil quilómetros. Nas pirâmides tambén ficaram expressos outros dados científicos como o número, o cálculo exacto da duração do ano solar e o peso do nosso planeta, assim como o movimento dos equinócios, o valor do grau de longitude, a direcção real do Norte, entre outros. *A autora é africanista e jornalista cubana, colaboradora de Prensa Latina. AMP