GÂMBIA: UMA DESCULPA TARDIA Por: Roberto Correa Wilson* -Um descendente do maior escravista inglês pede perdão aos gambianos Havana- A Gâmbia é um pequeno país da África Ocidental que limita ao norte, este e sul com o Senegal, cujo território divide e, praticamente, está rodeado por este, com a exceção do oeste onde desemboca o rio Gâmbia no Oceano Atlântico. O país fez parte da zona de influência dos grandes impérios sudaneses da Gana, Mali e Sounghai. Os portugueses chegaram à desembocadura do rio Gâmbia no s. XV, mas não colonizaram o território. Os ingleses que mantinham o comércio pelo rio Gâmbia, por concessões dos portugueses, enviaram em 1660 uma expedição que capturou o forte Santo André, que recebeu o nome de Fort James. Desta maneira iniciou-se o assentamento britânico na zona, que se prolongou durante mais de 300 anos. Depois começou a rivalidade pelo tráfico de escravos e marfim. Das discrepâncias com Portugal, Holanda e França saiu vitorioso o Reino Unido, a potência dominante. A Gâmbia foi declarada colônia inglesa em 1843. Durante anos padeceu a rivalidade entre a Grã-Bretanha e a França, que se anexara as terras limítrofes. Em 1904, em função do acordo franco-britânico, ficaram estabelecidas, definitivamente, as fronteiras. Retrocesso no tempo Agora o inglês Andrew Hawkins (37) viajou ao diminuto estado gambiano e perante 25 mil africanos pediu perdão pela ação de um de seus antepassados, Sir John Hawkins, um dos maiores traficantes de escravos da história. Foi o primeiro inglês em levar um carregamento de escravos africanos através do Oceano Atlântico. Sem o menor escrúpulo humanitário a Rainha Isabel I decidiu inverter capital da Coroa nas seguintes viagens, dando via livre ao comércio sistemático de escravos para a América. Em 1562, Sir John combateu contra a frota espanhola, junto com seu primo Francis Drake (1540-1596) que levou a cabo várias expedições aos domínios espanhóis da América (1570-1572). Drake realizou a primeira viagem britânica que dobrou o Estreito de Magalhães. Participou da destruição da Armada Invencível (1588). O tráfico de escravos para a América foi iniciado pelos portugueses, para substituir a dizimada população indígena no Brasil. Depois de ser exterminada pelos conquistadores, foram substituídos no infame negócio pelos africanos, por serem mais resistentes no trabalho agrícola e nas minas. Este inumano tráfico continuou até 1807 em que a Grã-Bretanha decidiu proibi-lo e persegui-lo em suas colônias porque assim convinha a seus interesses de desenvolvimento econômico. O mais humano que poderia ocorrer é que o jovem inglês Hawkins, do qual não se duvida de seus boas intenções, inicie uma campanha de acordo com a Coroa Britânica para recompensar o empobrecido povo gambiano, que através de séculos sofreu tanta humilhação e exploração. De qualquer jeito o gesto sincero de Hawkins se agradece, mesmo nada será possível obter do governo de Sua Majestade, envolvido em guerras como as do Iraque e Afeganistão e nas pressões para o Irã abandonar seu programa de desenvolvimento nuclear pacífico. *O autor é jornalista cubano, especializado em política internacional e já foi correspondente em vários países africanos.