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“OS ESTADOS UNIDOS USURAM ILEGALMENTE GUANTÁNAMO”, DISSE SILVIO RODRÍGUEZ

Havana.- O cantor e compositor cubano Silvio Rodríguez disse a uma canal de televisão do País Basco que o governo estadunidense usurpa ilegalmente o território cubano de Guantánamo e aí comete desaforos.

O autor de El Necio (O Néscio) se encontra em turnê pela Espanha com motivo do lançamento nesse país do mais recente disco Erase uma vez que era (Era uma vez que era) acrescentou também que Washington tem o poder ideológico da mídia no mundo e os usa com arrogância.

A entrevista com a emissora autonômica basca ETB apareceu no site dessa tevê e não se ajustou ao conteúdo real. Por essa razão, Prensa Latina publica agora a reprodução literal dessa conversa graças a Violeta, a filha do intérprete, que a entregou à Rádio Havana Cuba.

- Agitar consciências, acordar emoções e remover sentimentos: como é que faz para conseguir as três coisas ao mesmo tempo?

Muito poucas vezes tive a intenção de agitar consciências. Uma dessas exceções foi quando cantei à Nicarágua vitoriosa do sandinismo, uma realidade que pedia aos gritos uma canção e a fiz por essa urgência. Digamos que prefiro provocar reflexões a agitar. Acho que os pensamentos têm muito a ver com o meu trabalho, como também as emoções e os sentimentos. E é que as minhas canções vêm do que acontece às pessoas, a mim mesmo; idéias, emoções, sentimentos que o acontecer humano me provocam, que me fazem desejar expressá-los com música, para partilhá-los.

Silvio Rodríguez- O primeiro tema do novo disco Erase uma vez que era é Ode à minha geração: merecem todas as gerações uma ode ou é preciso ganhá-la a pulso?

Tenho certeza que até a mais humilde das gerações fez seu aporte. A minha é a dos filhos dos que fizeram a guerra revolucionária, ou seja, uma geração bem inspirada e que foi decisiva para empreender a sociedade que nos propusemos. Ode à minha geração é um tema que fala do estímulo que significa para nós o desejo de estar à altura daqueles tempos. Também sugere incompreensões, que sempre há, e o risco, o compromisso que pode implicar escrever um poema. Por isso fala “de tantos meninos filhos desta festa/ e da tortura de ser eles mesmos”.

- E também tem uma Canción de la trova (Canção da trova). No ano que vem se comemoram 40 anos desde que você, Pablo Milanês e Noel Nicola se conheceram, para posteriormente fundar o Movimento da Nova Trova. Tem algo a ver? Tem previsto algo especial para o ano que vem?

A Canção da Trova é de 1967. Recém começava eu quando fui convidado a um programa da rádio da trova tradicional e aquela experiência me fez desejar, em certo sentido, ser como os velhos músicos que ali conheci. Eu me vi como parte de seu mundo, porém mais novo, com o dever de continuar e ao mesmo tempo com a necessidade de achar uma expressão que identificasse o nosso tempo, a nossa geração. Acho que essa necessidade era compartilhada pelos trovadores jovens que começávamos a nos reunir então. Essa identidade artística nos deu coesão e muito também a identificação revolucionária. A data que se acostuma a celebrar é a de criação do Movimento da Nova Trova como organização, coisa que aconteceu cinco anos depois de nosso encontro, que em efeito, foi em 1967. Quem sabe se algum dia isso mude.

- Todas as apresentações de sua turnê no Estado Espanhol são de formato mais reduzido, sem campos de futebol ou praças de touros, por quê?

Porque estamos fazendo música acústica, com um som cálido, como normalmente é a música trovadoresca. Neste empenho me acompanha um trio da província cubana Villa Clara, chamado Trovarroco, composto por Rachid López no violão, Maikel Elizarde no três (instrumento parecido com o violão, mas de três cordas, NT) e César Bacaró no contrabaixo. Também temos a flauta e o clarinete de Niurka González e a percussão de Oliver Valdés. O certo é que preferimos os lugares de boa acústica, onde esta forma de fazer música soa melhor e onde a comunicação é mais próxima.

- Uma terceira parte desta turnê se desenvolve em terras bascas. Nos teatros Kursaal, Baluarte e o BEC de Bilbao (o único de grande formato): há alguma razão especial?

Não é raro que boa parte destes shows seja por terras bascas. Sempre foi mais ou menos assim. O do BEC foi uma petição que nos fizeram os empresários e nós acedemos. Acho que na Sevilha, onde há quinze anos que não vamos, também há características especiais do foro.

- Conhece a situação política basca e as possibilidades de participação que abriram? Como é que se vê desde Cuba?

A paz é um impedimento só para os que se beneficiam com a guerra. Já o vimos e continuamos vendo muito claro no mundo. Oxalá consigam essa paz que deseja e merece o povo basco e o melhor do Estado Espanhol e tomara também que seja em breve.

- Compreende aqueles que criticam a prisão militar dos Estados Unidos em Guantánamo e ao mesmo tempo dizem também que em Cuba não se dão condições políticas que permitam a livre expressão democrática?

Posso compreender, mas tenho a minha própria opinião. Guantánmo é um pedaço do território nacional cubano usurpado ilegalmente. Que o usurpa e ali cometem desaforos. Tem, além disso, o controle ideológico da mídia mundial e o usa com arrog6ancia. Mas se a democracia é o governo que dita o povo.

Mal estaria a nossa democracia se coincidisse em princípios com os que despojam os cubanos de seu território, que os bloqueiam e os caluniam. Por essas e outras muitas agressões Cuba vive num estado de exceção desde faz muito tempo. Eu tenho a certeza que se os que nos atacam reconhecessem o que desesperadamente tem feito e faz Cuba pelo próximo, tudo mudaria. Assim que, se verdadeiramente nos querem ajudar, tentem fazer entender isto a Casa Branca...

- É possível a justiça social com a relação atual de forças no mundo? O que deveria mudar?

Nas condições atuais a justiça social praticamente passou a um segundo plano, deslocada pela necessidade de sobrevivência. Ante isso as proporções de tudo o que deveria mudar poderia nublar a vista.

- Em novembro fará 60 anos e agora lança um novo disco. Isso quer dizer que haverá Silvio por um tempo mais, não é?

Tomara. Enquanto eu preste para alguma coisa. E muito obrigado por terem lembrado da minha data.

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