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José Luciano Franco Ferrán

JOSÉ LUCIANO FRANCOI FERRÁN: MESTRE DE HISTORIADORES

Por: Leyda Oquendo Barrios

Havana– Para falar de José Luciano Franco Ferrán é necessario reflectir sobre a condição humana deste homem, união de erudição e modéstia, de energia e ternura, de grandeza e simplicidade. Historiador que deixou marcados caminhos de grande importância para posteriores investigações sobre Cuba e Afro-América.

A sua morte, no dia 5 de dezembro de 1989, foi o termo de uma longa e proveitosa vida de mais de nove décadas. O seu poderoso pensamento unido à riqueza que se apreça na sua obra fazem obrigada referência à actualidade.

Neste sentido é coerente falar de quem não esbanjou nem um minuto da sua longa vida: daí que o seu trabalho transcenda e continue a orientar os estudosos da História Afro-americana. Não é fácil fazer um reconto da vida do Doutor Franco, reconstruir o seu tempo que começa na Cuba colonial e termina no vitorioso processo da Revolução Cubana.

O “Galeguinho”

O ano em que nasceu José Luciano Franco, 1891, tem qualidades históricas. José Martí pronuncia em Tampa dois dos seus melhores discursos sobre a Guerra Necessaria: “ Com Todos e para o Bem de Todos “ e “Os Pinhos Novos”. Também nessa cidade se funda a Liga, instituição á qual Martí faria testemunho de respeito e entrega pela sua nobre luta pela liberdade; Matín Morua Delgado intelectual filho de escrava, publica nesse ano em Havana o seu romance “Sofia”.

Antonio Maceo GrajalesO General Antonio Maceo Grajales na sua digressão pelo continente na preparação da luta pela independência , viajou á Costa Rica e alí estabeleceu na fazenda ”La Mansión” um importante campo para o treino dos futuros soldados cubanos. Nesse mesmo ano cumpria-se um século do começo da Revolução Haitiana, processo iniciador para todo o Caribe e a América Latina.

Hoje avaliamos a coincidência destes factos porque José Luciano Franco é o biógrafo mais importante de Antonio Maceo y Grajales e o historiador que nos entrega a obra cubana mais perfeita sobre a Revolução do Haiti. Nos tempos do nascimento e a infância de José Luciano Franco, as ruas de Havana podiam-se diferenciar por aquelas que estivessem dentro ou fora das famosas muralhas da cidade.

Na rua Zanja, pelo bairro de San Lázaro, vivia José Luciano Franco. A cidade, embora não tivesse muitas casas, derramava naquele bairro um folclorismo, onde se reuniam chinêses, mulatos, espanhois pobres e crioilos pobres. Tudo se mestiçava. Cruzavam-se as “raças” para sublinhar assim o mulato em Cuba. Nesse ámbito cresçeu o filho de Caridad Ferrán e José Franco. Ela descendente de africanos, ele de galegos, do casal nasceram dois meninas e um menino.

Causa admiração o vinculo amoroso que juntava naquela altura as duas étnias fundamentais da cubania. A explicação é a seguinte: no bairro de San Lázaro sim podia ser assim, pois ali, embora não se apagassem os limites raciais, era possivel “passar” com facilidade. Por esta razão José e Caridade viveram felizes quase 15 anos, até que dois meses depois de nascer José Luciano ela morreu.

Uma tia tomou conta do pequeno, forjando-lhe uma personalidade onde se encontravam características da cultura galega, predominante na familia. Nessa altura José Luciano é conhecido como o “Galeguinho”. Começava em 1899 na escola do bairro e foi “baptizado” assim pelo seu sotaque.

Dona Rosario Betancourt, a sua esposa por 68 anos, lembra como numa viagem à Corunha visitaram uma taberna onde Franco falou em perfeito galego para surpresa de todos. Da época do “galeguinho” diria, em 1879 no seu livro “O Meu Velho Bairro”: “Na minha rua Soledad, suja e pobre pela exploração colonialista, o piano de Maria Albarades punha uma nota de romanticismo...”

“Há 80 anos as ruas do meu bairro inundaram-se de camponeses esfomeados e esfarrapados – na sua maioria mulheres e crianças – que o Bando de Reconcentração do Capitão-General Weyler tinha tirado das suas terras e morriam vitimas da fome e o beribéri... (1). “Noutras ruas acampavam centenas de soldados espanhois desnutridos e doentes que retornavam de combater os “mambises”, cada dia mais fortes nos campos desta região ocidental da Ilha...”.

Próximo a estes actos, Pepe Franco Betancourt, filho de Luciano, conta como o seu pai, ao ouvir a explosão do navio “la Coubre”, afirmou não ter dúvidas de que um navio tinha estoirado no porto (o qual foi confirmado momentos depois). Recordava com total nitidez a explosão do “Maine”, 70 anos antes, também um golpe imperial. Tocou a José Luciano a dolorosa sorte de ser testemunha de ambos os seucessos.

As recordações do “galeguinho” entrega-nos um José Luciano escritor que reflecte a sua própria vida, a história do seu bairro. Aparecerá nos seus relatos o grupo carnavalesco “El Gavilán”: “... nutrido pelos operários da fábrica de tabaco do meu bairro, um agradável grupo de indios tentavam reproduzir a vida pre-colombina e os seus simbólicos “Areítos”... os seus rivais mais imediatos eram “El Alacrán” e “La Culebra”, que representavam cenas do periodo colonial...”.

Esse jovem que lia

Franco, depois de terminar na escola primária não conseguiu continuar os seus estudos no ensino secundário. Recebeu então aulas no Centro Galego sobre contabilidde e outras matérias de nivel secundário. José Luciano diria, na entrevista que lhe fez o historiador cubano Enrique Vignier: “A péssima economia que nos fez viver numa casa muito pobre, levou-me à idade de 15 anos a trabalhar como tabaqueiro. Na tabacaria pode conciliar o trabalho com o estudo”.

O começo como operário (em estreita união com o proletariado) o marcou para sempre, ainda quando nunca fez um bom charuto. Desse contacto conseguiu Franco essencial conhecimento sobrea classe operária, o qual se une com o encontro, aos 12 ou 13 anos, com um dos grandes : Juan Gualberto Gómez, com quem esteve ligado até 1933 , data em que morre o destacado revolucionário.

A sabedoria de “Dom Juan” foi admirada por José Luciano nesses anos de adolescencia e primeira juventude. Ele apreçava o estimulo e a atenção que lhe dava aquele grande homem para que estudasse, para que não retrocedesse nas suas tentativas de superação, o jovem Franco foi muito receptivo a isto; tanto, que aos 22 anos começa a trabalhar como empregado de limpeza na Cámara Municipal, e em muitas ocasiões “fugia” à biblioteca da instituição, para assombro dos vereadores, com a leitura deixava de fazer a limpeza. Então perdeu o emprego.

Este facto, que significou um revés na trajectoria do jovem Franco, foi muito positivo, pois de ter continuado como empregado de limpeza na Cámara Municipal, a sua vida, que se projectou noutras dimensões laborais naqueles anos duros de busca incansável de uma forma de subsistência, teria ficado em marcos mais limitados que os atingidos posteriormente.

Das recordações de Dona Rosario, da única e curta visita de José Luciano e ela aos Estados Unidos, há uma referência. Alí a casualidade fez que se encontraram com o vereador que tinha proposto o despedimento de Franco do seu “brilhante” emprego na limpeza da Câmara Municipal. O encontro, em 1938, altura em que já José Luciano era um destacado intelectual cubano, deu lugar a uma conversa mais ou menos assim:

“Amigo Franco, peço-lhe desculpas pois foi eu quem provocou a sua saida do municipio – disse o ex-vereador– pessou-me muito isto, e peço-lhe novamente desculpas...”.

José Luciano sorridente respondeu: “O senhor não fez mal, não sabe o agradecido que lhe estou, pois isso aumentou os meus desejos pela leitura e o conhecimento. Foi um grande favor o que fez”. O incansável leitor deanálise profundo e erudito que foi José Luciano teve a sua origem naquele jovem que lia e que perdeu o seu emprego na república mediatizada.

Todo o amor

Quando se chega à casa de Gervasio 715 e se soube pela escada que comunica com o lar de José Luciano, encontra-se Dona Rosario como num plácido sossego: jovem aos seus 104 anos, lúcida e sempre evocando o esposo de todos os minutos da sua vida.

Ela, a “Charito” dos sonhos juvenis de Franco, olha para nós sorridente desde uma fotografia ainda com a fragância da adolescente mestiça e uns olhos que evidênciam a descendência asiática. Em Gervasio –alí mesmo, na rua em que ainda mora– um pouco mais em cima, o viu chegar um dia ... ela de 15 anos, ele de 24.

Só uns meses depois o jovem lhe propôs matrimonio provocando a sua surpresa. Ele foi capaz de ama-la e participar nos seus brinquedos de menina, e de aproxima-la ao seu desejo de homem. A fez cúmplice dos seus sentimentos e embora os maiores da jovem duvidassem do matrimónio, sucumbiram também ao assedio do namorado.

A vida do casal teve muitos trabalhos e penas; também de complacência quando a situação de Franco jã tinha certa estabilidade.Então podiam viajar sempre em função da indagação erudita. Assim conheceram a Espanha, a França, a Alemanha, América. Noutras ocasiões foi necessario sacrificar móveis, reduzir-se, para sobreviver.

José Luciano amou a sua companheira. Ela conta-nos “... ele na minha companhia começou a escrever, a fazer a sua obra. Sempre lia para mim o que fazia , então eu, que não sei muito, dava a minha opinião e ele ouvia-me e então dizia que eu lhe era muito útil”.

Não esquece Dona Rosario as conversas e visitas de Emilio Roing de Leuchsenring, de Nicolás Guillén, de Blas Roca, de Lugo Vinas, Victor Manuel. São recordações com as quais compartilha a sua vida; logo conheceu um pouco mais da intimidade familiar, da troca de opiniões... da luta do marido a favor das causas justas.

Lembra a primeira exposição de artistas que patrocinava o municipio de Havana, em que Franco e Roig não só promoveram e convocaram, mas também até limparam o local da exposição. José Luciano e Dona Rosario tiveram dois filhos, José, falecido recentemente, e a concertista Rosario, os dois testemunhas do amor dos pais. Nas paredes da casa Franco Betancourt ficam os testemunhos do amor compartilhado que foi refúgio de um grande lutador intelectual pela causa do seu povo.

O intelectual do povo, José Luciano Franco, é o homem das mil batalhas culturais. Tem incontáveis artigos históricos e os seus livros são mais de 50, onde se destaca a presença africana em América. Entre eles “ Os Palenques dos Negros Chimarrões”, “A Gesta Heróica de Trivarato”, “A Presença Africana no Novo Mundo”, “O Comércio Clandestino de Escravos”, “ A Dispersão Africana no Novo Mundo”, istos são alguns da sua grande bibliografia.

Um verdadeiro monumento cientifico-social constitui a obra que dedica este investigador ao Maior-General Antonio Maceo Grajales, figura à qual entregou uma boa parte do seu trabalho. Escreveu 10 livros e folhetos sobre a sua trajectória e o mais brilhante “Antonio Maceo: Apontes para uma História da sua vida”, Obra em três tomos, demonstra uma objectividade e precisa indagação cientifica.

Jorge Enrique Mendoza, historiador já falecido, disse nas exéquias do Mestre dos Historiadores que “ ... só por esta obra José Luciano tem um lugar destacado na Historiografia Cubana”. Ao longo da sua trajectória o Doutor Franco obteve reconhecimentos que vão desde medalhas escolares até a condição de Investigador de Mérito, outorgada pela Academia de Ciências de Cuba, por ocasião do seu aniverário 97.

Na sua longa e proveitosa vida, este simples e laborioso filho das massas populares cubanas, quem assumiu a Verdade Histórica como bandeira de combate, teve multiplices incompreensões mas não há dúvidas que também foi reconhecido internacionalmente com as Palmas Académicas da França, o Mérito Civil da Espanha, a Medalha de Honra e Mérito do Haiti, por apenas mencionar algumas. Especialista da UNESCO para a História de África, único latino-americano que teve esta denominação pelo seu destacado trabalho afro-americanista.

O governo cubano outorgou-lhe a Medalha XX Aniversário do Moncada, as condecorações Félix Varela e Carlos J. Finlay. Num lugar muito especial tinha o Doutor José Luciano Franco Ferrán a condecoração que mais o orgulhava, a de Heroi Nacional do Trabalho da República de Cuba; para ele isto constituia uma verdadeira dádiva por tudo o que tinha lutado na sua vida a favor dos mais esquecidos.

*A autora é investigadora cubana, Professora Titular e assessora da Casa de África.

Amp

(1) Franco refere-se à reconcentração obrigada da população rural no ocidente de Cuba, medida repreessiva utilizada em finais do século XIX pelo colonialismo espanhol contra os cubanos pelo seu papel na guerra de independência.

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