A EDUCAÇÃO HISTÓRICA EM PÁTRIA: UMA VISÃO ESTRATÉGICA DE MARTÍ Por: Marlene Portuondo Pajón* Havana– A história é ciência, mas é também fonte de sentimentos, de valores, identidade e permite-nos conhecer o presente, prognosticar o futuro, conhecendo o passado. Apesar de que na obra martiana não há uma teoria da história propriamente dita, exposta de forma sistemática, sim existe um método “ ...histórico-político pois considera o sobrevir dos factos, o processo de formação e desenvolvimento do fenómeno numa diversidade de ângulos, com uma visão... calidoscópica, o qual nos permite no presente... avaliar a profundidade e a objectividade das seus observações”. Precisamente, os numerosos comentários que Martí realiza da história tem a sua base ideológica e chegam a se converter numa arma ideológica, educativa na formação da preparação das novas e velhas gerações com esse fim, mais uma vez o diz, procura a raiz dos problemas para conhecer a sua verdadeira essência. E ainda mais, quando se trata de fazer consciência nas massas para desenvolver a sua estratégia revolucionária. Isto chega a desenvolver ideologia a partir da obra da educação política. Em carta a Gonzalo de Quesada o dia 25 de outubro de 1891 expressa o seu interesse em fazer pública a sua obra escrita, e põe nas suas mãos esta responsabilidade. Mas adverte que deve ter conta “ ... tudo aquilo que eleve o espirito, fustigar as consciências dormidas, para que acordem à ideia do dever, manter activo o culto ao passado, com os seus exemplos, os seus heroísmos, os seus sacrificios, as suas esperanças não realizadas, mas não mortas...”. A certeza da unidade latino-americana percebe-se através de Pátria “...dessas duas ilhas de nome diferente que lutarão amanhã com o mesmo coração, que se defenderão com um mesmo braço, que se construirão com um mesmo pensamento: A Ilha do Porto Rico, onde nasceram os comissionados que pediam à Espanha ... a supressão da escravatura, e a Ilha de Cuba, onde o primeiro acto dos cubanos brancos reunidos em nação, foi abolir a escravatura dos negros, cubanos ou africanos”. Assim falou – afirma-nos Martí-, “... o nobre e valente Sotero Figueroa”. E acrescenta: “Desde os dias da Junta ele expôs a irmandade dos cubanos e do Porto Rico, ele descreveu o esforço em Lares, anterior ao de Yara, e o entusiasmo com que no coração da sua terra se amou, com a dor das mãos atadas, aos precursores cubanos”. Fica esclarecido que o esforço comum entre ambas as ilhas traça o seu objectivo político. “A república, no Porto Rico como em Cuba, não vai ser o predomínio injusto de uma classe de cubanos sobre outros, mas o equilíbrio aberto e sincero de todas as forças reais do país, e do pensamento e desejo livres de todos os cubanos ...Se morirá pela república depois, se for preciso, como se morirá pela indepência primeiro”. Não se perde a linha criadora do Mestre: a convicção humana desenvolve-se com os conhecimentos, e para que a compreensão se transforme em convicção, se deve compreender totalmente o objectivo político que tem desenhado. Para isto promove o debate das ideias através da imprensa, onde não só se unirá a aqueles que “mantem com firmeza, com sacrifico e desinteresse a independência da pátria”, mas analisa minuciosamente a imprensa norte-americana como o Evening Telegraph, de Filadelfia, entre outras e a publicada em Havana como o reaccionário Diário da Marinha. Para isso é “Pátria na imprensa. É um soldado” e para isso “nasce este jornal, à hora do perigo, para vigiar pela liberdade, para contribuir para que as suas forças sejam invenciveis pela união, e para evitar que o inimigo nos volte a vencer pela nossa desordem”. É tarefa imediata unir as forças através da promoção da consciência histórica nos individuos. Para isto, observa-se nas suas analises políticas que recorrem a este método, uma lógica irrefutável e as provas histórico-políticas irrefutáveis, mantendo na sua expressão uma clara e simples harmonia, sem deixar de penetrar no profundo da temática: não a relação histórica principal nos seus argumentos, analisando cada questão desde o ponto de vista de como tem surgido o fenómeno, quais são as etapas principais no seu desenvolvimento, e desde este ponto de vista analisa a sua actualização. São esclarecedores os seus critérios sobre o autonomismo e o anexionismo através dos seus diferentes artigos jornalísticos. Destacam-se em Pátria “A agitação autonomista” (1892), “ O remédio anexionista” (1892), “Assim que conselhos e promessas de autonomia ? “ (1893). Ressalta a expressiva a palavra contra o autonomismo: independência, e precisa o conceito: “Pela confusão dos termos confundem-se os homens. Não há que estar nas palavras, mas em aquilo que elas encerram”. Este esclarecimento é válido em termos políticos, persiste em considerar o especifico do termo e a sua aplicação em Cuba, que não concorda com o conceito própriamente dito. Prestava-se isto a confusões e ataca: “ A autonomia seria uma palavra agradável ao cubano e ao porto-riquenho, pois autonomia quer dizer governo próprio, se o autonomismo não houvesse descomposto os elementos necessarios para o governo próprio”. Martí considera na sua analise o meio histórico, levando em conta as condições estabelecidas em Cuba: “ A continuação da revolução não pode ser a continuação dos métodos e o espirito da autonomia; pois a autonomia não nasceu em Cuba como filha da revolução, mas contra ela”. E conclui: “ A política é uma resolução de equações. E a solução frustra-se quando a equação não tem sido bem proposta”. Mas Martí não só insiste no carácter histórico que lhe deu nascimento, mas o papel do autonomismo através da história ao ter lugar a guerra de independência: “Evita-la foi o seu objectivo e está em atitude mais vantajosa para evita-la do que para a servir”. As reformas que propugnavam não resolveriam o problema social cubano. A campanha do Partido Liberal Autonomista pretendia isolar os cubanos das suas aspirações pela independência, e Martí explica no seu editorial sobre as enganosas promessas. Mas essa batalha de ideias não só se enfrenta contra o governo colonialista, mas contra as pretensões anexionistas. Na edição do dia 2 de julho de 1892, o artigo “ O remédio anexionista” explica o errado e perigoso de essa aparente solução ao problema cubano. Mais uma vez impõe-se a analise consequente que logo permite generalizar tendo em conta diferenças e analogias destas correntes políticas. Este virtuosismo lógico, que em diferentes circunstâncias Martí desentranha, demonstra em efeito o objectivo da política norte-americana para Cuba com projectos que estão longe da independência com: “ ...intenção de feitoria e de pontão estratégico”. Martí não evita as interioridades deste fenómeno . Assim esclarece no seu artigo as fontes de onde brotam essas forças: a opinião dalguns cubanos sobre a incapacidade do seu povo para um governo próprio, assim como a atitude desprezativa de certos norte-americanos. Considerando as confusões que implica essa política, Martí lança um apelo aos anexionistas honrados para apoiarem a independência. A organização e triunfo do separatismo seria a melhor demonstração da capacidade dos cubanos para fixar as vias do seu processo histórico. Contudo, não se exclui a união. Em Pátria aparece um constante chamamento neste sentido a todos aqueles que estiveram interessados em apoiar a independência de Cuba. E Pátria publica um discurso que ofereceu Gonzalo de Quesada o dia 17 de abril de 1892 em Hardman Hall, Nova Iorque, onde chama à união: “E o Partido Revolucionário Cubano !Oxalá seja para já! Tem como objectivo estreitar aos autonomistas e anexionistas que venham em pós da união”. Outras alusões sobre a política norte-americana destacam-se em Pátria. Sob o título de “A verdade sobre os Estados Unidos”, (1894) Martí fala das diferenças existentes com o povo de Cuba, e os problemas internos que ainda essa república não tem ultrapassado. Ante isto diz: “ É de grande ignorância e de ligeireza infantil , falar dos Estados Unidos e das conquistas reais ou aparentes de uma região sua ou grupo delas, como de uma nação total e igual, a liberdade unânime e de conquistas definitivas: semelhantes Estados Unidos são uma ilusão ou um engano”. Faz referência à “ianquimania” descrita como “a república autoritária e activa para que a conheçam os povos latino-americanos. Qualquer projecto social tinha que partir do conhecimento das leis sociais e espirituais na sua inter-relação. Não se podia criar ao homem novo desconhecendo o seu passado, muito menos para prognosticar a sua evolução no futuro. No conhecimento dessas leis sociais, a história desempenha para Martí um papel muito importante junto à política. Por isso, na construção do seu projecto revolucionário teve em conta não só a analise crítica da história da ilha, das suas ideias, da sua cultura, mas também o seu estudo comparado com a história da América Latina, os Estados Unios e a história universal. Precisamente o antes exposto é fortalecido nas linhas de Pátria. Se bem que não há raças pois “não há mais do que modificações diversas do homem, em relação aos hábitos e formas, que não mudam o essencial”, Martí define com clareza as caracteristicas do surgimento da população norte-americana: “ O que muda é a consequência peculiar do diferente grupo histórico: num povo de inglêses e holandêses e alemães afins ...” Cultura e hitória não se identificam com as raizes latino-americanas. Martí ensina isto. Não é a república que devemos imitar, pois “ ... em vez de dar soluções aos problemas da humanidade os reproduzem, em vez de unir-se na política nacional das localidades, a dividem; em vez de fortalecer a democrcia e salvar-se do ódio e a miséria”. Martí preveu que os Estaos Unidos se tentariam apoderar de Cuba e as Antilhas para que lhes servissem de base aos seus objectivos imperialistas. Descobriu como andavam divorciados o desenvolvimento material e o crescimento da vida moral e espiritual. Sem dúvidas, reconhecia as virtudes da pátria de Lincoln, mas mostrava à vez os perigos que representam os Estados Unidos com o seu individualismo. Finalmente, deduz o divórcio do desenvolvimento da sua economia com os sentimentos de solidariedade e amor com os povos. Encontra-se aqui o centro dos problemas da época actual. O momento exigia não fazer recontos históricos, mas prestar homengem aos hérois e continuar com o seu exemplo. Era necessario partir das experiências dos erros da contenda passada, para tirar com força revolucionária, e atrair à nova geração junto aos veteranos da anterior. Lembra Martí : “ ... aquela década, cheia de momentos épicos e necessários extravios, renasce com os seus heróis , com os seus homens nus, com as suas admiravéis mulheres, com os seus astutos camponêses, com os seus caminhos secretos, com os seus valentes expedicionários. Já estão provados os armamentos, o não necessário se tira e o bom é aproveitado, utiliza-se ... Já dão resultado as nossas misérias, que os erros são uma proveitosa semente. A intuição tem-se convertido já em inteligência: as crianças da revolução já se fizeram homens”. E a memória histórica é objecto de reivindicação na obra martiana. O valor que Martí dá à História faz parte da sua estratégia política: a educação das massas, esse é a arte da sua política. Deve-se por isso escrever a história, para que “ ...subsista , para inspirar e fortalecer”. Conhece que a literatura deve e pode desempenhar um papel importante na vida espiritual dos homens, se são capazes de reflectir a história destes pela via da perpetuação dos valores, os sentimentos, as ideias daqueles que participam no movimento histórico como sujeitos e os daqueles que se expressam na obra artítica. Essa obra literária –como dissera nas controvérsias entre o Liceu Hidalgo do México e o Liceu de Guanabacoa de Cuba– “...deve expressar também o ser do homem desde as perspectivas do dever ser, para que possa influir sem dúvidas no melhoramento humano”. Por isso a literatura chega a ser fonte não só de memória histórica, mas também da história como ciência. A literatura é necessaria para estabelecer a relação fácil e acessivel entre as diferentes gerações, e contribuir para conformar e fixar na consciência de um povo a sua identidade cultural e nacional, e como fonte para o conhecimento do seu passado. Para esse objectivo, teve o jornal o que Martí chamou Biblioteca de Pátria, que atendeu pessoalmente. Não surpreende que o gosto pela poesia fizesse que o primeiro livro publicado tenha sido “ Os poetas da guerra”, compilação de versos escritos na guerra de independência de Cuba, reunidos por Serafín Sãnchez, e cujo poólogo escreveu Martí: “E vai ficar esquecida uma só memória daqueles tempos insignes, só uma palavra daqueles dias em que falou o espirito puro e aceso, um punhado sequer daqueles resíduos que quiséssemos reviver com o calor das nossas próprias entranha?“ Sabe que não sempre é boa a poesia que se está a dar a conhecer, mas: “ a sua literatura não estava naquilo qeu se escrevia, mas naquilo que faziam. Por vezes não rimavam bem, mas só os pedantes o teriam em conta: porque morriam bem”. Entre os poetas conhecidos encontravam-se Miguel Gerónimo Gutiérrez, Antonio Hurtado del Valle, José Joaquín Palma, Luis Victoriano Betancourt, Ramón Roa, entre outros. Segundo Martí: “ Há versos que fazem chorar, outros ordenam subir ao cavalo”. Neste sentido, camponêses e pessoas instruidas cantavam nos campos de Cuba as décimas “ Ao Exército Libertador”, cujo autor não foi conhecido. Contudo, nestes versos sente-se o patriotismo dos rebeldes em Cuba: “Bala, tição e machete ao godo devem rematar ou vamos continuar a ser da Espanha um brinquedo. Com assassinos, ladrões, estão a fazer a guerra; pois vêm da sua terra mas esfomeados que gorrriões, levando-se os nossos milhões, que é o que buscam; e aquele que não consiga fugir, ! pobre se ficar aqui! Pois o valente rebelde cubano, com o godo deve acabar”. Não fuge da visão de Serafín Sánchez recolher na memória histórica as quintilhas que escreveu Luis Victoriano dois anos depois de iniciada a guerra a sua mãe, que se encontrava em Nova Iorque. Novamente o amor à pátria deixa-se sentir na voz do poeta nos versos “A minha mãe”. “Duas vezes a mão fria do Norte gelou a minha frente, desde que a minha mãe com amorosa alegria, falou-me por última vez. E ao ver de Cuba a ferida deite-me em braços da sorte junto à pátria aflita e disse adeus à vida e foi a buscar a morte. Nada, nada vai poder apagar o meu amor à pátria, pois me comanda o dever, ou novamente ver-te livre, ou morrer em Cuba!”. Não só o canto à pátria e à mãe foi objecto de interesse em Martí para despertar as consciências dormidas através da compilação de Serafín. Está ainda presente a voz da mãe pedindo ao seu filho o seu dever perante a pátria em “Glosa Popular”: “Embora sou a mãe e te amo como um filho das minhas entranhas, prefiro ver-te morrer como guerreiro a quem a morte não provoca terror: os pergos da guerra são feitos para aquele que é homem, e se queres ter nome luta pela tua terra”. Outro dos exmplos que se podem expor é o caso de Francisco La Rua, quem nu e delcalço – como o descreve Serafín Sánchez - se submeteu a longas caminhadas através de caminhos de pedras, com espinhas que cortavam a pele. Ao herói o toma como exemplo através dos versos que escreveu dasde as batalhas de Camaguey (1876) a sua amada Enma: “Mais nunca voltarei a teu lado com vida ou sem honra, que à pátria a minha vida entreguei com valor. Feliz e livre e com a frente levantada chegarei, ou fixa no teu recordo o meu olhar, pois morrirei”. Verdadeiras narrações históricas manifestam estes versos que buscam “ ... na memória a honra passada ... Tem a guerra a sua poesia famosa, pois expressa em forma sincera os sentimentos e sacrificios pela pátria”. Não há que insistir na intencionalidade ideológica do Mestre ao fazer público estes versos. A hitória identifica-se mais uma vez com a cultura, ultrapassando os limites da chamada literatura culta, nos ámbitos de um conceito muito mais extenso, o da litaratura popular, que na história vivida e na literatura oral se encontram em laços indissolúveis. Assim o avalia Martí ao assinalar: Recolhamos o pó dos seus pensamentos, já que não podemos recolher o dos seus ossos, e percorramos o caminho até ao campo sagrado dos seus sepulcros, ajoelhar-se perante eles, e perdoar no seu nome a aqueles que os esqueceram ou não tem o valor de os imitar”. A biblioteca de Pátria publica o segundo volume “Heróis Humildes”, que recolhe biografias de patriotas escritas por Serafín. Chama a atenção como nos homens que fazem história não só se recolhe na memória os grandes protagonistas, mas ao homem comum que fez parte decisiva na contenda. Esse é também o propósito de Martí, dar a conhecer à nova geração a participação de todos pela causa comum : pois os “... homens da revolução de Yara, daqueles que tendo surgido da obscuridade humilde não andam muito em boca da actual geração”. Sem dúvidas, mais uma vez, Martí nos ensina a fazer história. O terceiro volume: Ignacio Mora, foi uma biografia escrita por Gonzalo de Quesada e publicada em várias partes do jornal Pátria. Em finais de 1894, projectava-se realizar um novo volume de poesias, que reuniria os lidos pelos cubanos e os seus amigos do Caribe e a América por ocasião das festividades pelo dia 10 de outubro. O jornal Pátria reflecte a independência dos intelectos. Isto fundamenta-se com a convicção martina de que a história” ... desempenha um papel insubtituivel na formação da consciência nacional e continental”. Com esse objectivo Pátria não esquece os bosquejos biográficos dos heróis protagonistas da contenda. A estes endereça diversos artigos : “ O General Gómez” (1893), “Antonio Maceo” (1893), “Mariana Maceo” (1893) , “A Mãe dos Maceo” (1894); sem esquecer os fundadores : “ Ante o sepulcro do Padre Varela” (1892), “José de la Luz “ (!894). Outros autores continuam essa linha. Não se esquecem os escritos de Gonzalo de Quesada: “ Fernando Figueredo Socarrás” (1892), “Ignacio Agramonte Simoni” (1893), “Serafín Sánchez” (1894)” entre outraos. Não se obvia que este órgão de imprensa contava com uma secção dedicada a temas históricos. Em Martí tudo isto serve de fonte para argumentar sobre a necessiade de uma revolução nacional libertadora em Cuba, inspirada na dignidade do homem e a justiça social. Assim o expressou no primeiro número de Pátria ao expressar que este nascia para “ ... explicar e fixar as forcas vivas e reais do país e os seus germes de composição e descomposição para que o conhecimento das nossas deficiências e erros, e os nossos perigos, garantam a obra à qual não seria suficiente a fé romântica e desordenada do nosso patriotismo ...Precisamente, nesses germes de composição e descomposição, Martí adivinha o papel das massas populares. A elas escreve artigos. Como “O operário cubano” (1892), “ Nas oficinas” (1892), “Pobres e Ricos” (1893), “Os pobres da terra” (1894). Neste último, Martí destaca os “heróis da miséria” que trabalham para a pátria, e em ocasiões chamam-se irmãos. Compara no artigo o papel do rico e o papel do pobre na causa da independência: “Se o rico dá o que lhe sobra, é justo, e bem pouco é, e não há que o celebrar, ou a celebração deve ser menor, por ser o esforço menor, mas, aquele que só tem as brancas paredes do desterro e cobertos os pés dos seus filhos, e tira do seu inseguro jornal , que muitas vezes lhe falta o pão e a carne que leva a sua casa, e da sua grande necessidade dá a uma república invisivel e talvez ingrata, sem esperança de pagamento de glória, é genuino mérito...”. A esse afâ de unidade com a massa dolorida, une-se nela o papel do negro, aspeito anti-racial que desmascara a política espanhola de que a guerra em Cuba era uma guerra de raças. Novamente recorre à história para fazer verdade a sua ideia política. Pátria publica “Basta” (1892), “A Minha Raça” (18939, “O Prato de Lentilhas” (1894), “Sobre negros e Brancos” (1894). Martí esclarece no segundo deles que “ A república não pode voltar atrás; e a república, desde o dia único da redenção do negro em Cuba, desde a primeira constituição de independência do dia 10 de abril em Guáimaro, náo falou nunca de brancos e negros”. No “Prato de Lentilhas”, novamente recorre à forja da nação cubana: Guáimaro, e a importância histórica desse acontecimento: “Há 25 anos foi concedida a igualdade social. Lá, 25 anos há, é onde se visitaram como irmãos brancos e negros... Lá, há 25 anos, foi onde os negros serviram pelo mérito, às ordens do branco, e os brancos, pelo mérito, serviram às ordens do negro. Lá, ...concedeu a revolução cubana ao negro o passeio igual, o cumprimento igual, a escola igual! A Espanha tem chegado muito tarde! O da Espanha é 25 anos depois. A revolução fez tudo isso antes. !Jamais se afastarão os braços brancos e negros que se uniram!”. Na sua analise, Martí conhece os elementos que integram a sociedade cubana: classes e grupos etno-culturais, e transcende neste último o papel que lhe corresponde no lugar histórico da realidade cubana. Por isso ao considerar a abolição da escravatura a subscreve como “ ... o facto mais puro e transcendental da revolução cubana”. E essas massas populares constituem o elemento decisivo na transformação social: “ Ignoram os tiranos que o povo, a massa dolorida, è o verdadeiro chefe das revoluções...”. Por iso exorta às organizações de base do Partido Revolucionário Cubano a estudiarem a experiência da passada contenda, sobre a base do debate, atendendo na participação da velha e nova geração. É do debate político que contribuia para a preparação ideológica dos homens com que devia contar para a obra redentora. Esta particularidade – que se deu em Nova Iorque e que Martí publica em Pátria – não é uma casualidade. “Um falará sobre um tema, e outros logo perguntarão e responderão sobre ele. Umas vezes, pelo nivel do assunto, será só a Conferência. Outras será o tratamento das ideias essenciais, para fazer calar uma dúvida, para atender uma instituição política, para conhecer o alcance de um programa social: e tudo com o objectivo de acender o patriotismo na ração e de salvaguardar a terra dos erros do entusiasmo cego ... dos perigos da ignorância”. E justamente, numa dessas reuniões Martí fala numa Conferência. Esta publica-se em Pátria e diz: “A nossa história enteira desenvolvia-se ponto trás ponto, e as razões que faziam viva a necessidade da obra unida ... delineu as causas da derrota da primeira guerra; explicou as causas da segunda guerra, quando ele mesmo presidia a junta de Nova Iorque, explicou o estado do país depois de ambas as guerras, e a necessidade de pôr remédio às causas que nos fizeram cair; descreveu o trabalho silencioso destes 12 anos para reunir os elementos que não ficaram estimados, para dissipar o receio justo dos revolucionários de campanha contra os da emigração ... para reunir os elementos revolucionários de maneira que possam criar em Cuba uma república pacifica e laboriosa antes de que, o vizinho poderoso, para a conquista dissimulada, possa alegar como desculpa perante o mundo a destruição irremediável e a incapacidade política de uma Ilha indispendável para o comércio do mundo”. Finalmente, manifesta-se o método “histórico-político” do conhecimento da realidade social. Por isso, o seu ideário é considerado como um momento de continuidade, rompimento e superação com as tradições precedentes. *A autora é licenciada, professora de História de Cuba, Faculdade de Ciências Médicas de Havana.