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OS SANTOS GANGA: NOVAS BUSCAS E DESCOBRIMENTOS

Por: Israel Moliner Castaéda*

Havana.- Ninguém tem me explicado melhor o que significa o mundo religioso ganga, que Magdalena Mora numa das sessões de trabalho que tive com ela, quando me disse: "Em toda religião é a história da mitologia que a cria, porque os cientistas são mitológicos".

O mundo inteiro sabia que os escravos em Cuba estavam passando por uma etapa de atropelos e crimes. Os nossos ancestrais nos legaram as suas tradições, que são a mitologia africana.

Na religião ganga os santos não têm búzios, são só pedras, por isso não se fazem consagrações de cabeças. Nesta religião mamba quer dizer ganga e não se tem o costume de adorar nem Aganju, nem Oxóssi, nem Obba, nem Nanã Buruku, Ossain ou Olokum, deidades do panteão iorubá. Entre os ganga da região de Perico (Matanzas, a 102 km da capital cubana) quando se referem a Deus o fazem com o nome de Olófin.

Mas a meu juízo, isto não é mais que um reflexo da influência da Regra de Oxa ou Santería (religião de origem iorubana, semelhante ao Candomblé brasileiro, N. do T.) , na região, algo que podemos observar em outros aspectos como o sincretismo ou identificação dos 'santos ganga' com as virgens e santos católicos, assim como a mencionada utilização do obi ou coco, nas suas formas de adivinhação.

Para os Ganga Longowa de Perico, Gewa, é fundamentalmente o guardião das casas e habita detrás da porta da rua. Depois do melancólico canto que inicia a cerimônia pública ganga, no que evocam aquele terrível momento quando os seus ancestrais foram introduzidos no barco negreiro, para ser trazidos a Cuba como escravos, ali mesmo, junto à porta da rua, começam a tocar os tambores para que Gewa abra os caminhos da festa, numa unidade cerimonial que estimo como um verdadeiro 'rito de abertura'.

A diferença dos seus semelhantes em Oxa, Ijexá ou Arará, Gewa ao tomar conta do seu possesso o faz com movimentos muito pausados, como alguém a quem espera uma tarefa muito pesada, sem que isso exclua outros instantes em que é revoltoso e travesso.

San Antonio de PaduaEntão corre pelos quintais das casas vizinhas, escondendo ou transtornando tudo o que encontra no seu passo.É assentado sobre uma pedra que é preciso pôr no ponto meio de um lençol e que depois depositam no fundo de uma pequena panela de barro. Ao seu lado colocam um copo de água e açúcar preto, mais uma litografia de Santo Antônio de Pádua, que é o santo católico com o que sincretiza e que tem sua festa em 15 de Julho.

O possesso de Gewa usa um chapéu de 'guano' e lhe dão uma bengala ou 'garabato'. Oferecem-lhe água com açúcar preto, porque nesta religião os santos não bebem bebida alcoólica alguma. O seu possesso se veste com lenços brancos e azuis.

O primeiro canto da festa ganga não é propriamente de Gewa, mas por fazer parte do início da festividade se associa com ele. Num hino com um desenho melódico muito especial e a diferença de todos os demais, sempre se executa sem tambores, quer dizer, com as vozes só, a capela.

Vem ser como uma lembrança dos dias de escravidão e uma evocação à terra donde foram arrancados:

"Rio vácua
Rio vapo
Se va, rio vacua,
Vacua rio,
Y tamue yange".

De imediato segue-se com um grande cumprimento a todos os santos ganga, no que se conhece como o chamingo: A comida ritual de Gewa consiste em farinha com inhames e é colocada detrás da porta, perante a sua pedra de fundamento. As fontes tradicionais da casa estimam que Eslinda Lauzán foi a sacerdotisa mais importante que já teve este 'santo'.

Segundo os meus informantes, as funções de Nou são as mesmas de guerreiro, ferreiro e cortador de cana que possui o Ogum da Santería. Magdalena Mora, narrou sobre este santo o seguinte: "Dança com um facão e usa uma calça com uma pata mais longa que a outra. Recebe vinho seco e reparte a sua comida entre os convidados. O seu baile tem muitas mudanças e evoluções.

Quando eu era criança, via que Nou chegava ao tambor fazendo muitos gestos com o facão. Quando estava furioso lhe faziam muitas rezas e lhe punham muitos lenços, mas na atualidade não se faz. Não fuma, nem bebe nenhum tipo de bebida alcoólica, porque isso não se usa no ganga".

A vestimenta de Nou se baseia em muitos lenços de linhas vermelhas, que se põem no peito e um na cabeça. No entanto, já ficam muito poucos deles na casa. A sua comida favorita é o arroz com feijão preto. Identifica-se com São Pedro; a sua festa é em 29 de Junho.

Mora segue explicando que este 'santo' é um dos mais venerados e importantes entre os ganga, sobretudo, porque Florinda Diago, que foi a última grande sacerdotisa da casa, montava Yebbe. Eu tive a dita de poder ver Florinda, já com 96 anos, dançar o seu Yebbe.

Fazia-o com uma escovinha de ramos de coco, enfeitada com um tecido de 'saraza' ou saco muito fina e um vestido longo, do mesmo tecido. Na cabeça lhe punham um lenço vermelho.

Rio CongoQuando era tomada pelo seu 'santo', o trance ocorria de maneira violenta, mas depois a sua forma de dançar era mais tranqüila e de nenhuma forma fazia os movimentos de leproso que são próprios de alguns caminhos de Obaluaê, em Oxa. Era curioso, porque quando Yebbe aparece, imediatamente afastam as crianças do lugar.

Quando se manifesta violento, lhe oferecem manteiga de 'corojo' para acalmá-lo. A sua comida principal se faz com carne de galo, bode ou porco, unida a milho torrado. Acostuma a beber um pouquinho de vinho doce.

Em todo o centro do continente africano e especialmente ao longo do rio Congo e na periferia do lago Nyasa, região da qual provêm os ganga longowa, existe uma serpente extremamente temida pelo seu veneno à que denominam mamba.

Não acho que esta coincidência de nomes, entre o ofídio venenoso e "o santo dono dos trovões", seja casual. Afirmo que os mecanismos primários de raciocínio levaram, baseados no perigo de ambos, a tal associação nominativa.

Mamba é o principal dos 'santos ganga' e realmente, o verdadeiro dono de dita casa. Como em outras transculturações afro-cubanas, se sincretiza com Santa Bárbara, mas estimando-o como homem. A festa é em 4 de Dezembro.

Caracteriza-se por chegar às cerimônias dando gritos. O possesso é vestido com um lenço vermelho na cintura. O dia para fazer oferendas é a Sexta-feira e os seus animais favoritos são o carneiro e o galo vermelho.

A sua comida ritual se faz com carne de alguns desses animais, farinha e 'quimbombó'. Gosta muito do vinho tinto, mas se não houver, se conforma com o mel de abelhas com um pouquinho de água.

Não tem de usar um machado bipetalar, como o Xangô da Santería, o Alade Ijexá, ou o Jebioso dos arará. Tem vários hinos, todos muito cadenciados, como se fossem ‘rumbas’ (baile típico urbano, N. do T.), porém o mais popular diz: "Mamba, ê, êê, ê Mamba e nanan donma" (O coro se repete).

Yemaya-Elegua-ChangoEntre os ganga longowa de Perico, a Santa do Mar, recebe o nome de Obbe. Ela é dona do mundo marinho e da maternidade. A ela acodem confiadas muitas mulheres que desejam ter um filho e outras, já grávidas, para que lhes dê saúde e as proteja durante a gestação e ter um feliz parto.

As suas ervas prediletas são todo tipo de hortelãs, a língua de vaca, o feto de rio, a caoba, a canela, o berro e o alface. O seu animal preferido é o pato, mas também come bode e carneiros. Rege os Sábados. Quando pega um possesso numa festa, o faz com muito alvoroço e dando saltos, mas de imediato tocam para ela o seu maracá azul e lhe oferecem água com mel de abelhas e lhe põem lenços brancos na cintura e um azul na cabeça.

Ela é a "santa dona dos rios, as riquezas, a doçura e o amor". Sua semelhante na Santería é Oxum, sincretizada com a Virgem da Caridade do Cobre, Padroeira de Cuba, com a festa no dia 8 de Setembro.

Sobre ela nos diz Magdalena Mora: “Chega à festa alegre, rindo e seduzindo todos os santos homens, sobretudo Nou. O mel é dela; principalmente gosta de que lhe ponham um pouquinho num prato e encher dela as mãos e a cara, para depois fazer o mesmo com os seus filhos. Ela usa lenços amarelos na cintura e na cabeça”.

A comida de Yeye se faz com galinha e arroz amarelo bem debulhado. O único que ela toma é água com mel de abelhas. Os seus bailes são tão cadenciados, como a sua música e mais bem pausados do que rápidos.

Oiá, ou com mais propriedade Were, é para os ganga, a santa dona do mundo dos mortos. A identificam com Santa Teresa de Jesus e a sua festa é no dia 15 de Outubro. Sobre ela me contava a idosa María Luisa Herrera, que já está com 80 anos de idade: “Oiá toma água de coco e come arroz branco.

Chega igual que Mamba, gritando e alvoroçando tudo, mas traz a sua comissão detrás, que são os mortos que sempre a acompanham, por isso é preciso dar-lhe um ramo de hortelã ou 'espanta-morto', com os que da voltas como um remoinho para espantar os defuntos e poder limpar os seus filhos”.

As suas roupas consistem em lenços de cores vivas que lhe atam ao redor da cintura e outro, feito com retalhos, também de cores vivas, que lhe põem na cabeça. O seu animal favorito é a galinha amarela e como comida ritual lhe dão arroz amarelo e muita água de coco. O seu baile é muito rápido e movido.

Para os Ganga Longowa o santo Arenwe, A Chinesa ou mais popularmente conhecida como A Velha, é a dona da paz e a tranqüilidade. É uma mulher anciã, de passo inseguro e de falar pausado. É capaz de acabar com todo tipo de brigas e desordens. É evocada para que “faça reinar a paz e a harmonia entre todos os homens do mundo”.

Os seus animais são as pombas e as galinhas brancas, que se cozinham com arroz branco e ovo, sem gordura, nem sal. Esta comida é colocada num prato branco e nas festas todos os seus filhos devem comer dela. Sincretiza-se com a Virgem da Mercê, com festividade em 24 de Setembro.

Quando incorpora o seu possesso, o faz de forma tranqüila. Veste-se com lenços brancos na cintura e a cabeça. O seu baile é lento, com passos curtos e de pouco movimento.

A diferença de outras religiões afro-cubanas, entre os ganga, numa festa o tributo aos mortos ou Egum, não se faz antes de começar a parte festiva, mas à metade desta. Se em meio aos hinos lutuosos, incorpora-se algum santo ganga, tira a todo o mundo que esteja ao seu redor, diante do seu caminho para que possa evoluir livremente e também se afasta a todas as crianças que estejam no lugar.

Então espalham milho torrado e perfume e se joga água para a rua, porque como dizem meus informantes ganga, “eles vêm para receber as suas homenagens e trazem as suas comissões, que não são mais que mortos”. A morte, é chamada, indistintamente, de viviana ou dubana.

Nos velórios ganga, quando os santos vêm, têm que dar três voltas ao redor do caixão, enquanto tocam os seus hinos normalmente, como se fosse uma festa. Pouco antes de partir ao cemitério o cortejo fúnebre, se reza uma espécie de ladainha, chamada de dubana, onde se mencionam todos os defuntos do grupo e depois se canta.

A música deste grupo Ganga se caracteriza pelo delicado desenho melódico, ainda dentro de uma relação pentáfona e uma métrica binária, que em ocasiões resulta algo mais flexível que em outras expressões das religiões afro-cubanas. A polirritmia, muito rica e variada, se baseia em quatro fontes sonoras: três tambores bi-membráfonos e uni-percussivos e um sino ou chocalho.

Tive a oportunidade de ver e tocar os ancestrais tambores ganga de Perico, quando já deviam ter mais de século e meio de construídos e dou fé de que se encontravam em perfeito estado. Segundo me diziam os tocadores, nunca tinham mudado o couro dos tambores.

Estavam feitos de tronco de abacate, esvaziado ao fogo e com couro de bode que entesavam com cânhamo. Sua forma era reta. O maior ou caixa media uns 3 centímetros de alto, por 39 centímetros de ambos lados. O mediano ou mula, 28 cms de alto, por 25 cms de diâmetro e o mais pequeno ou cachimbo, 23 cms de alto, por 23 de diâmetro.

O cordão de cânhamo para a sua afinação era semelhante aos tambores do cabildo Ijexá Modu de Matanzas, isto é, em forma de N de couro a couro no vertical e depois com dois remates horizontais perto de ambos panos para segurá-los e dar-lhe o máximo de tensão. Todos estes instrumentos se percutem com uma espécie de vara feita de madeira de goiaba de umas 12 polegadas de cumprimento e mais bem finas.

Completa a orquestra ganga, o sino ou chocalho é geralmente percutido por Magdalena Mora, que é a cantora solista. Tem uma figuração rítmica e independente dos tambores, funcionando como um elemento de coesão, entre as cadências do canto e a polirritmia dos atabaques/ Infelizmente, os ventos do furacão Flora, em 1968, destruíram parte da casa dos ganga, especificamente onde se guardavam os tambores, pelo que foi preciso reconstruí-los para as cerimônias, e para ser usados pelo conjunto artístico que desde 1984 tem a casa para participar em atividades convocadas e organizadas pelo Ministério da Cultura na região.

Este grupo musical de dança resulta muito atrativo e já tive a grata experiência de levá-los comigo a eventos que acostumava a organizar em Matanzas, tais como os Encontros sobre a Cultura em Matanzas, os Festivais da Rumba e o Tambor e também nos encontros de Grupos de Praticantes Portadores.

Também já teve intervenções com grande êxito, em eventos internacionais ilustrando as minhas conferências, como os Encontros Internacionais sobre o Fato da Dança Folclórica de Havana e os Festivais do Caribe, em Santiago de Cuba (província, do oriente do país).

Todas estas atividades têm permitido, especialmente a Matanzas, que se tenha uma maior consciência de valor e da importância desta casa Ganga Longowa de Perico.

Mais que as histórias dos 'santos ganga', muitas das quais, não são mais que os mesmo relatos da Santería, existe um caudal de histórias referidas à vida desta casa e os seus protagonistas, mediante as quais se expressam muitos dos valores mais importantes do grupo, incluindo o seu prestígio no panorama das religiões populares em Matanzas. O seguinte relato, que serve de conclusão para este trabalho, me foi contado por María Luisa Herrera, uns meses antes da sua morte e quando já tinha aproximadamente 90 anos de idade:

“Há uma história que eu vivi faz muitos anos, lá por 1945. Chegou um homem bêbado como para zombar da festa que estávamos fazendo para Mamba. Ele dizia que aquilo era bruxo e não santo.

Então começou com sacanagem a pedir azeite, a molhar o chão e se fingir que estava incorporando um santo. Mas Julio que era um dos que mais sabia naquela época, começou a cantar: Menino, em geree, menino! O cara se jogou no chão, como se fosse fulminado por um raio e a cabeça soou como um coco seco. Quando pôde se levantar e ver a porta da rua, saiu como um diabo dando gritos até chegar ao parque de Perico. Assim ficou até que a polícia o levou. Nunca mais ninguém voltou a atrapalhar uma festa dos Ganga”.

*O autor é professor e investigador cubano.

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